Quais características distinguem um talento esportivo? O autor analisa os fatores genéticos, físicos, psicológicos e ambientais que influenciam o desenvolvimento de jovens futebolistas e propõe critérios para a identificação e o acompanhamento de futuros atletas de alto rendimento.
O esporte de alto rendimento não é para todos; é elitista e discriminatório, porque suas exigências são muito altas e específicas e estão direcionadas especialmente aos aspectos condicionais, psíquicos e constitucionais do atleta.
As possibilidades de se destacar no esporte estão ligadas a dois pontos fundamentais: a carga genética (genótipo) e a influência do ambiente (treinamento e competição). Os jovens que têm possibilidades de se destacar são os chamados “talentos”. Meu discurso talvez soe antipedagógico; no entanto, é necessário que pais e treinadores compreendam que nem toda criança é um Maradona em potencial. Tampouco toda criança é um cientista em potencial, embora, obviamente, todas as crianças possam e devam investigar e brincar.
Digo isso porque, às vezes, o amor nos faz ver nossos filhos como gênios em uma atividade para a qual não possuem as mínimas condições, embora eu não duvide de que toda criança, se soubermos procurar, tenha um gênio especial para alguma coisa e, obviamente, possa praticar futebol ou qualquer outro esporte de forma recreativa, sem necessariamente ter que aspirar a ser uma estrela desse esporte.
Infelizmente, poucos seres humanos conseguem descobrir e desenvolver o talento que os torna diferentes dos demais. Neste caso, falaremos do talento motor, ou seja, das características que deve possuir um jovem que deseja dedicar-se ao esporte de alto rendimento.
1. O que é um talento?
É um indivíduo que possui determinadas características físicas e psíquicas excepcionais, do ponto de vista específico de um esporte, que permitem considerar que possui condições para alcançar o alto rendimento.
2. De que depende a realização do talento?
- Idade de início do treinamento.
- Horas de treinamento dedicadas ao esporte.
- Regularidade dos treinamentos.
- Condições materiais (material esportivo, quadras e campos) em que ocorre a aprendizagem do esporte.
- Nível de conhecimento dos treinadores.
- Apoio familiar.
É importante a detecção precoce dos talentos, pois as aprendizagens que não forem realizadas nas idades ideais nunca mais serão compensadas e permanecerão como déficits e limitações do rendimento esportivo.
3. Quais são os critérios físicos para selecioná-los?
- Nível das capacidades físicas em cada idade (velocidade, resistência etc.).
- Capacidade excepcional de adaptação orgânica que permita um treinamento com intensidade, volume e frequência adequados.
- Boa capacidade coordenativa inicial.
4. Quais são os critérios psíquicos e cognitivos para a seleção?
- Boa capacidade tática que lhe permita resolver situações difíceis com ideias simples.
- Grande disposição para o rendimento (coragem, vontade de treinar, estabilidade emocional na vitória e na derrota).
5. Quais são os elementos determinantes da aptidão de um atleta para determinado esporte?
- Nível atual de rendimento.
Considera-se que um atleta apresenta um alto nível quando, dentro de sua categoria, se destaca por seu rendimento físico e psíquico.
- Capacidade de aprendizagem.
Considera-se que um atleta possui capacidade de aprendizagem quando progride rapidamente em todos os fatores determinantes do rendimento.
- Estabilidade do rendimento.
Observa-se quando os rendimentos do atleta aumentam de forma contínua.
6. Quais são os pontos básicos aos quais o observador de talentos deveria se dedicar durante sua observação?
- Inteligência de jogo.
Como o jovem é capaz de resolver situações inesperadas do jogo.
- Desenvolvimento tático.
Comportamento do jogador na situação de jogo em relação ao(s) companheiro(s) e ao adversário.
- Criatividade.
Como o jogador tenta solucionar situações de jogo com base em uma ideia própria.
- Capacidade de adaptação.
O jogador consegue modificar seus padrões de movimento de forma rápida e adequada diante de situações imprevistas?
- Agressividade e ambição de gol.
O jogador busca insistentemente, durante o jogo, o gol adversário com o objetivo de marcar?
- Iniciativa.
É capaz de tomar decisões diferentes das propostas e chutar a gol ou driblar de forma surpreendente?
- Comunicação verbal.
O jogador se comunica fluentemente com seus companheiros, advertindo-os sobre o perigo ou pedindo a bola ou determinada jogada?
- Estabilidade psíquica.
O jogador é capaz de manter um bom nível de rendimento apesar de algum erro cometido, do resultado ou das críticas de seus companheiros e da ação do público?
- Compreensão do jogo.
O jogador é capaz de realizar movimentos livres, mesmo quando a bola não está próxima, para marcar um adversário ou pedir a bola?
- Capacidade técnica.
Quais recursos técnicos (passar, receber, cabecear, chutar a gol etc.) o jogador possui e como os utiliza em função de uma ideia de jogo e do posicionamento de seus companheiros?
- Aspecto constitucional.
Do ponto de vista constitucional, a altura e o peso também são elementos importantes que não devem escapar à atenção de um bom observador, sobretudo se considerarmos que, atualmente, ao observarmos as melhores equipes da última Copa do Mundo, elas estão repletas de jogadores altos.
- A “finta” da criança acelerada.
Em idades mais baixas, deve-se considerar a possibilidade de que as crianças apresentem uma incongruência entre a idade biológica e a cronológica. Frequentemente, os especialistas nos lembram que os talentos esportivos apresentam certo atraso em relação às crianças normais, portanto, nem tudo o que reluz é ouro aos 11 ou 12 anos de idade.
O reconhecimento de todos os aspectos enumerados poderia nos permitir estabelecer um perfil do jogador com possibilidades de iniciar um treinamento que poderia conduzi-lo ao alto rendimento.
Depois de algum tempo em que o talento tenha sido incorporado ao sistema de treinamento de um clube/escola, o treinador deveria responder às seguintes perguntas:
- Seu desenvolvimento condicional e coordenativo corresponde às características específicas dos jovens mais destacados de sua idade?
- Demonstra adaptação ao aumento progressivo da carga de treinamento?
- É capaz de aplicar, na competição, os elementos técnicos e táticos aprendidos no treinamento, e seu ritmo de jogo é compatível com o nível físico alcançado?
- Demonstra congruência entre os resultados obtidos no treinamento e os obtidos na competição?
Para um clube, é excelente que, ao final do processo de seleção e treinamento dos talentos, de cada geração permaneçam apenas aqueles que apresentam as melhores relações entre idade, nível de desenvolvimento biológico, capacidades motoras, habilidades técnicas e desenvolvimento cognitivo.
Por outro lado, como o futebol é um esporte de associação, também devem ser observados os comportamentos sociais do jovem com seus companheiros e adversários. Em contrapartida, é desastroso para um clube que, na seleção dos jovens, prevaleçam o “apadrinhamento” e outras práticas desonestas que frequentemente observamos nos clubes e que, sem dúvida, não produzirão jogadores de alto nível.
Bibliografia
– Selecione seu esporte. Robert Arnos, Charles Gaines – Editorial Paidotribo.
– Futebol infantil. Treinamento Programado. Carlos Borzi – Editorial Stadium.
– O talento esportivo. García Manso, Campos Granel – Editorial Gymnos.
*Professor de Educação Física. Treinador de atletismo. Preparador físico de esportes coletivos. Mentor da revista mexicana “ATP-Energía y Movimiento”. Diretor e Editor da revista digital mexicana “Futbol p-f”.
Artigo extraído da revista digital “Futbol p-f”, Nº 15, 2003.


